6/25/2008

Volver

Não que ele esperasse ansioso por aquele momento, ou o contrário, que ele não tivesse nem aí para o que estava para acontecer, nem tanto ao mar, nem tanto a terra, na verdade era um pouco de cada, uma mistura de vontade, com medo de fazer o que pelas circunstâncias do momento, era inevitável. Todos nós vivemos esse momento na vida, o momento da decisão, o dia “D”, a hora “H”, como diz tal rock antigo. Na maioria das vezes, na grande maioria das vezes dá tudo certo, e essa máxima humana lhe encorajava, o fato de final dar tudo certo, lhe dava forças para seguir adiante, pois se achava o máximo e ele era humano, condição que naquele instante, que apesar do receio, fazia todo o sentido. Ser humano é mais que um conjunto de tecidos, órgãos, vasos e sangue. Ele sabia que era muito mais que isso, e ele tinha mais.

Pode parecer mais um clichê, mas agora ele fazia um balanço da sua vida com um filme preto e branco passando pela sua memória, as coisas importantes, suas pequenas perdas, o medo do escuro, o gosto por dormir a tarde e ficar acordado a noite, a paixão pela música, o distanciamento de multidão, reuniões familiares nas refeições, as animadas festas de aniversário, o hábito de contar estórias a se formar no fundo da sua personalidade e outras coisas mais que ninguém vê, mas que funciona como uma bagagem de mão da nossa alma. Na hora do pega para capar é só procurar por ali que a gente acha o caminho.

Dentro do quarto, trancado, esperava pelo chamado, pois sabia que mais cedo ou mais tarde o chamariam enfurecidos, mas dessa vez todos teriam uma surpresa, o imprevisível iria acontecer e ele faria valer o seu nome, a sua raça e a sua força. Enfrentaria seu destino de cabeça erguida porque agora estava pronto, não ontem e nem amanhã, mas agora estava pronto. Todos os seus músculos estavam tensos, tal animal selvagem pronto para o revide grotesco da luta pela sobrevivência, e era isso que ele era no fundo do seu ser: um animal sedento e selvagem.

Apesar do seu distanciamento físico e mental, dos fatos que aconteciam do lado de fora do quarto, dava para ouvir uma movimentação diferente na rotina da casa, um burburinho que às vezes explodia em choro com risadas isoladas, como se alguém estivesse tendo prazer em ver aquelas cenas, e isso o revoltava e lhe deixava mais selvagem que seu estado natural, como se ainda fosse possível. Longe ele escutou o grito de desespero de Armando, seu irmão mais velho, um grito lacerante, expressando um terrível sofrimento e nesse momento ele se sentiu o mais impotente dos homens, pois nada podia ser feito e seu irmão teria que cumprir seu destino, assim como ele em pouco tempo teria de cumprir o seu próprio. Se existisse um método, uma seqüência lógica, logo logo seria a vez dele, pois ele era o caçula de três irmãos homens, e só faltava mais um para chegar nele, o Alfredo, o que ele tinha mais afinidade.

Alfredo, apesar de ser o irmão do meio, portava-se como se fosse o mais velho, era o líder natural entre os três, foi o que primeiro beijou na boca, era o craque de bola do bairro, estudioso, bom filho e o mais bonito। No fundo, o predileto da família, mesmo que todos dissessem não, mas isso não era problema entre os irmãos, sua liderança era pacífica e merecida, e a sensação de que a próxima vítima seria ele, era a mais angustiante possível.

Lembrou de um trecho de um tango antigo sem saber porque...

“...Tengo miedo del encuentro
con el pasado que vuelve
a enfrentarse con mi vida

tengo miedo de las noches
que pobladas de recuerdos
encadenan mi soñar

pero el viajero que huye
tarde o temprano detiene su andar

y aunque el olvido que todo destruye
haya matado mi vieja ilusión

guardo escondida una esperanza humilde
que es toda la fortuna de mi corazon...”


Ao final da lembrança, escutou todo o silêncio da tarde sendo rasgado pelo grito do Alfredo e, percebeu que esse era o aviso e essa era a hora. A vida estava acontecendo a toda do lado de fora do quarto e ele não podia ficar de fora dela nem mais um segundo. Abriu a porta do quarto e encarou silenciosamente os dois homens de uniforme que estavam a sua frente, pensou que diferentemente das outras vezes, hoje eles estavam em dupla e deviam ter seus motivos. Talvez temessem pela própria segurança e isso não tinha a menor importância, o que importava mesmo é que estavam ali, sérios, uniformizados e truculentos. O mais novo, pois não devia ter nem vinte anos aquele rapaz, foi quem tomou a iniciativa abrindo a bolsa e retirando a lâmina de dentro. A família toda sentada, apreensiva, esperando pela reação dele, já não agüentava mais tanto sofrimento quando o pai rompendo com o silêncio falou calmamente:

- Vai filho, anda, o fura dedo não tem o dia todo...

6/20/2008

Sentimental

Oi Preta,

Hoje eu acordei muito feliz pelo dia de hoje, por saber que há... quer dizer, é melhor omitir a idade né? Bem, alguns, não muitos, anos atrás, você nascia nas nossas vidas – minha, do Papai e da Mamãe – para transformar totalmente nossas formas de viver, de ver o mundo e a nossa convivência de uma forma geral.

Já lhe falei uma vez, mas talvez você não lembre, você nasceu no mesmo dia que o Chico Buarque nasceu. Tem até uma música chamada “Sentimental” em que ele faz uma referência ao signo de gêmeos, signo de vocês dois, seu e do Chico. “Chic” nascer no mesmo dia do Chico, não é para qualquer uma e isso realmente você não é, e nem ele.

“...sentimental, sentimental
um coração saliente
bate e bate muito mais que sente
Fica doente
Mas é natural, natural
Que num cochilo de agosto
Surja um outro alguém do sexo oposto...”

Conhece?

Então, eis você surgiu preta! Na época, confesso, não fiquei tão feliz não, pois ser filho único tem o seu conforto e suas conveniências, e você realmente chegou para dividir comigo essa situação, e tudo e todos que me cercavam. Ao longo da gravidez da mamãe, sempre tinha um “filho da puta” que dizia coisas do tipo: “agora quero ver”, “tua mãe vai esquecer de você”, “você vai ficar no canto” e outros mal caratismos mais, que só os adultos são capazes de cometer no afã de serem engraçados, coisas que eu apesar de criança, pois tinha 06 anos, sabia que bom não devia ser.

Só que misteriosamente foi! E é! E espero que seja até o final das nossas vidas! E que o final das nossas vidas aconteça bem lá pro final mesmo, perto do fim.

Tenho muitas recordações da nossa vida em comum, muitas mesmo, quer ver? Eu lembro dos móveis do nosso quarto, todos em branco e laranja, lindos. Lembro da cortina com motivos de “cowboy”, cavalinhos, vaquinhas. Isso tudo na Vileta onde morávamos. Depois mudamos para Travessa Mauriti, e aí tivemos quartos separados, mas brincávamos uns com os brinquedos dos outros. Você lembra da vaquinha “mú-múúuuu”? Você lembra o que você disse ao Padre João quando ele disse que, em baixo estavam os peitos da vaca? Eu lembro muito bem: - Não padre, isso não são os peitinhos, isso é o “tú” da "vata"! Quase a mamãe morre de vergonha e eu e o Padre de rir.

Na época você era graciosamente “tati-bi-tati”. Taí, esse foi apenas um dos privilégios que você teve, ser “tati-bi-tati”. Eu não podia, tive que aprender falar direito e logo, pois a mamãe tinha medo que eu virasse veado e marcava em cima, colado...

Depois mudamos novamente, pois ainda não tínhamos casa própria e ficávamos ciganeando, sempre pela pedreira, bairro que habita minhas lembranças noite após noite. Dessa vez, fomos para a Travessa Lomas Valentinas, e voltamos a dividir o mesmo quarto, quarto que abrigava sua casinha de pano do Sítio do Pica Pau Amarelo, onde durante um certo tempo, colocávamos um abajur dentro e dormíamos lá mesmo...

Bons tempos!

Por último mudamos para a travessa Humaitá e voltamos a ter quartos separados novamente, eu, você, enfim, nós “adolescemos” e de certa forma nos distanciamos ligeiramente, mas por minha causa, que estava ficando rapazinho e já era metido a homem, mas sempre nos amando, silenciosamente do jeito dos adolescentes.

Hoje, dia 19 de junho de 2008, dia do seu aniversário, estamos dormindo em quartos separados novamente, dessa vez, a vida nos distanciou um pouco mais do que de costume, pois estamos em cidades, na verdade, em estados diferentes, mas misteriosamente, você está mais presente na minha vida do que nunca.

Preta, nos momentos difíceis, queria que você soubesse que, dentro da minha memória e do meu coração, há um quarto só nosso, cheio de vaquinhas, casinhas do “sítio”, cortinas de bichinhos, com móveis branco e laranjado esperando por você. Vai lá quando quiser tá?!

Te amo,

Jorge Carvalho.



6/14/2008

E o espelho não quebrou

As noites de sexta-feira, têm se repetido iguais, em forma em conteúdo. Depois das 22 e duas horas, filho e mulher dormindo, um dentro da outra, vivendo uma história à parte, quase um mundo paralelo, distantes e alheios dos escândalos políticos da hora, do último assassinato chocante, da inflação que chega cada vez mais descarada...

Nesses momentos, apesar de só fisicamente, tento me defender e parto em busca do mundo, afinal, concordo com John Donne:

“nenhum é uma ilha, sozinho em si mesmo, cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”....

Então, nessas horas “medonhas” (como se diz aqui no Ceará), corro no computar, revisito meus livros, ouço músicas e lembro por lembrar, vasculho a memória e quando nada disso dá certo, corro à televisão, a grande fogueira moderna, a resposta para todos os males e a causa da maioria deles.

Nesta sexta em particular, tive o grande prazer de, no programa “conversa afinada”, conhecer um pouco do Diogo Nogueira, filho do grande e saudoso, João Nogueira, sambista, compositor e cantor da maior categoria. Autor de clássicos como “Batendo a porta”, “Eu Hein! Rosa”, “Baile no elite” e outras “balas” mais.

Dono de uma forma ímpar de cantar samba, João Nogueira tinha a voz bem empostada e firmei, voz de quem canta a verdade, não falo da verdade absoluta, que ninguém tem, mas a verdade de si mesmo, que poucos tem. Saudades do “Nogueira”, mas apesar de tudo, como diria o próprio, “força nenhuma cala a voz da multidão” e hoje, nesta sexta feira vazia, eu sou essa multidão, multidão talvez mais perigosa porque de um homem só! Mas tudo na vida, tanto as pequenas, quanto as grandes coisas começam com homem só.

Enfim, vi o moleque. E que moleque! Faço questão de repetir:

...A vida, é mesmo uma missão,
a morte é uma ilusão,
só sabe quem viveu,
pois quando o espelho é bom,
ninguém jamais morreu...

Este caso bate, mas de uma forma diferente, com aquela estória da vida eterna, que no fundo todos nós, até os mais céticos, acreditamos e queremos, mas é diferente porque esta vida eterna falada aqui, é horizontal e não vertical. Vida eterna que não vai aos céus e sim prossegue na terra, cantando e encantando, pois o moleque segue assim, com seu jeito igualmente firme de cantar, sua simplicidade, seu jeito meio “blasé” de ser, continuando a missão do pai em grande estilo.

Quem já viu, observe melhor. Quem não conheceu, conheça por que o espelho não quebrou!

6/11/2008

CHERAVALDO EM : O FIM DE CHERAVALDO E O INÍCIO DE PEDRO


Estava ficando cada vez mais inquieto e agitado quando soube do dia 31 de julho de 2008. Essa data sempre me pareceu simpática, pois significava que as férias escolares tinham acabado e no outro dia iríamos para aula, não que eu gostasse de ir a escola, de aulas, de estudar, pelo contrário, sempre fui malandro em se tratando desses assuntos e ainda era caseiro, sempre preferir a segurança do lar à selvageria das ruas, mas devo confessar que ficava ansioso para reencontrar com os colegas, a namorada que nem sabia que eu existia, e todas as coisas mais dessa fase: futebol em todas as etapas do período, na entrada, no recreio e na saída. O lanche impagável vendido pelo seu Godô na cantina da escola Kennedy, que entre cachorros-quentes e "cocas", continha uma verdadeira jóia em seu cardápio: paçoca de gergelim com amendoim, vendida em copinhos de café. Impossível comer uma só... Geralmente, iam para dentro três ou quatro, rapidinho, torradinhas, crocantes, misteriosas. Quem estudou lá, sabe muito bem do que eu estou falando, e quem não estudou, sinceramente sinto muito pois, a escola não existe mais, tampouco o seu Godô, que naquela época já era velho e cansado.

Ao final de cada dia de aula, eu e minha irmã, íamos lá para frente da escola, esperar o papai que, diariamente chegava com pelo menos uma hora de atraso em seu Wolksvagem Brasília, motor 1.600, de cor branca. Sabe como é, diretor financeiro de um órgão público, funcionário exemplar e cuidadoso com suas obrigações, então não tinha jeito, nos acostumamos com o horário e até que era bom, pois além da companhia dos amigos que morava por perto, que se solidarizavam e ficavam esperando, conversando com a gente, descobrimos uma combinação alimentar perfeita: laranjinha da gelar acompanhada de pipoca quentinha com bastante sal e manteiga. Hoje, da gelar, resta apenas o depósito com suas gigantescas câmaras frigoríficas localizado na avenida Senador Lemos, quase em frente a casa de shows A pororoca e a lembrança que eu tenho das laranjinhas, picolés e seus sabores genuínos, amazônicos: taperebá, cupuaçú, açaí, bacuri etc.
O dia 31 de julho me remete a essas e outras coisas mais, me transportam ao primeiro filme do super-homem visto em companhia do papai no “Paraíso”, um cinema situado na avenida Pedro Miranda que enquanto rolava o filme, os morcegos ficavam flanando bem à vontade pelo salão, me remete também ao primeiro “kichute” que eu ganhei e usava amarrado nas finas canelas, ao uniforme azul turquesa da escola John F. Kennedy, a inseparável companhia da minha irmã. Traz para a minha memória o fim da temporada de empinar papagaios que por si só, merece um capítulo à parte, tal a riqueza do vocabulário e o fascínio exercido em crianças e em adultos que se perdiam no tempo dando laços por aí, “armados” com tubos de linha encerada, papagaios, cangulas, rabiolas, que com suas cores expressas em papel seda ornavam as tardes de Belém.

O dia 31 de julho de 2008 é o prazo máximo, a data limite para o nascimento do meu filho e essa data chegou na hora em que eu escolhi o nome do moleque. Conversando com minha mãe sobre esse assunto, disse que estava pensando em chamar o menino de Pedro. Minha mãe ouviu atentamente e aprovou a escolha, argumentando que além de bonito, a escolha ia de encontro com uma dívida que ela achava ter com o santo de mesmo nome, já que eu nasci dia 29 de junho. Contando para a minha filha a notícia, esta foi mais objetiva, menos mística e totalmente direta, instinto natural nas crianças que não sei porque, no caminho da velhice fica perdido em qualquer canto.

- Pai, se o meu nome é Pietra, é claro que o do meu irmão tem que ser Pedro! Hããaa?!

Levando em consideração a elipse da minha existência, mãe e filha, que apesar dos diferentes motivos, concordaram com o mesmo resultado, não tenho nada mais a acrescentar sobre esse assunto.

Assim, saibam todos, que no mês de julho de 2008 nascerá, Pedro Coragem de Carvalho!

6/10/2008

Cheravaldo em: Meio quilo

A sala estava lotada, e foi só o que eu percebi quando cheguei, sequer olhei para os meus companheiros e companheiras de espera, na verdade, companheiras em sua grande maioria, poucos pais acompanhavam as futuras mamães ali presentes e eu era um deles. Geralmente, em uma situação como essa, eu começo a observar o lugar, as pessoas em volta, seus comportamentos, roupas, tiques... Mas dessa vez não, apesar da Karina está comigo, meu único contato com o mundo exterior foram algumas revistas velhas, dessas de consultórios, que eu imagino que os médicos trazem das suas próprias casas, já devidamente vistas e desatualizadas, com os artistas das fotos, já todos separados ou casados com pessoas que estavam em outras páginas ou mesmo eu outras revistas. A Karina, que já está com a senha na mão, que é mulher, futura mamãe e fala pelos cotovelos, faz a primeira pergunta:

- Você está ansioso para ver como é que ele é? – As mulheres são engraçadas, quando você não fala nada, não pergunta nada, ela faz uma pergunta pra você, só que quem reponde é ela mesma, a pergunta nada mais é do que um gancho, um brado, um pedido de atenção, e continuou:

- Eu estou! Queria ver como é o rostinho dele. Será que ele é careca como eu era ou é cabeludo? Você era careca? Como será que ele está aqui dentro? – E calou sem dar a mínima para minha resposta, como era de se esperar.

Eu realmente não estava ansioso, ao contrário, estava tranqüilo e minha única preocupação naquele momento era saber da saúde, as preces feitas por mim durante a noite, antes de dormir, pediam basicamente por isso e de outras pessoas queridas. Queria que ele estivesse saudável, crescendo direitinho, nos conformes médicos pediátricos e coisa e tal. Estava mais preocupado com a essência, o resto é o resto, qualquer coisa depois é só comprar uma peruca se for o caso, aproveito e compro logo uma pra mim, já que o meu cabelo está caindo... O bebê ainda nem tem cabelos e os meus já estão caindo, será que isso quer dizer alguma coisa? Quando eu ia começar a divagar sobre os cabelos, ausência de cabelos, “interlace”, apliques a atendente falou:

- Karina Coragem! Por favor... – nos levantamos num salto e uma moça foi nos conduzindo ao lugar onde seria feito o exame, caminhamos, até agora não sei porque, meio apressados, como se fosse urgente e houvesse a possibilidade de em caso de atraso, o bebê não pudesse nos esperar. Bem, chegamos em uma salinha à meia luz, teto rebaixado com gesso que, tornava o ambiente menor do que realmente era, e poucos móveis. Finalmente os preparativos foram iniciados com minha mulher deitando em uma cama, dessas de consultório – hãa !claro, estávamos em um consultório! (como diz a Pietra para alguém que não entende o óbvio). A Karina me abriu um tímido sorriso e levantou a blusa até a altura dos seios, deixando a barriga de 5 meses, redondinha, descoberta à mostra. Nesse momento, eu procurei um lugar para sentar e me posicionei atrás da médica e de frente para um monitor, onde o bebê ia aparecer, onde o show da vida iria começar, não sei porque me veio na cabeça agora o slogan do “fantástico” e a Isadora Ribeiro saindo da água com aqueles olhos verdes...

Abre aparte

Da união dos meus pais nasceram dois filhos. Eu, Jorge Antonio Ferreira de Carvalho, hoje com 37 anos de idade e minha irmã, Andrezza Ferreira de Carvalho, com 31 anos de idade, logo, como se pode observar, temos uma diferença de idade de seis anos de um pro outro, lapso temporal bastante razoável, e que quase não é mais utilizado hoje em dia, acredito que, ou em razão da velocidade com que as coisas acontecem, ou mesmo pela própria durabilidade das relações matrimoniais de hoje em dia.

Abre aparte do aparte

Hoje para se ter filhos, há de se fazer um planejamento minucioso, que envolve finanças, férias, período, conciliações com colegas de trabalho e muitas vezes, pasmem, até permissão do chefe! É verdade, tem gente, que com receio de perder o emprego, pergunta ao chefe se seria possível ter um filho. Que mundo é esse que estamos vivendo não é mesmo? Acho que são fantasmas da revolução industrial que ainda permanecem por aqui e vez por outra voltam para nós assombrar.
Veio na minha cabeça um, ou melhor os vários tipos de diálogos, de uma mulher com seu chefe (ou os vários tipos de chefes), sobre o fato de poder ter filhos ou não.

Com o chefe casca grossa

- Huff, coff, gasp, Seu Adamastor, se o senhor tiver um tempo, gostaria de falar sobre um assunto particular – diz apavorada a funcionária;
- Dona Matilde, quantas vezes já lhe falei que tempo é uma variável que já não temos mais! Vai, desembucha logo enquanto eu vejo esses e.mail’s. Que droga, derramou café!!!
- Não se preocupe, eu lhe ajudo, pode deixar que eu limpo...
- Tire a mão de mim, e fale logo o que você quer antes que eu perca minha paciência de vez!!!
- Huff, coff, gasp , é que eu e o Martinez, meu marido, estávamos pensando...
- Não me interessa o que você, o Martinez e o escambau estavam pensando, na verdade você nem é paga para pensar, você é uma executiva e como executiva tem que executar! E por falar nisso, você já fechou seu objetivo? Vai deixar para a última semana do mês? Quantas vezes eu tenho que repetir que na última semana ninguém compra nada!!!

Neste caso, se a Dona Matilde estava grávida, perdeu e se não estava desistiu.

Com o chefe sedutor

- Bom dia Richard, gostaria de ter um minutinho da sua atenção, em particular é claro...
- Claro Jackeline, pode falar... - Richard responde sem tirar os olhos do colo da funcionária.
- É que eu estava pensando em ter um filho...
- Huff, coff, gasp, mas agora?!
- É Richard, porque o espanto, já está mais do que na hora, tenho 30 anos e já estou me preparando desde os 26.
- Não falo pela hora, nem pela sua idade, pois realmente você está no ponto, falo pelo local pois estamos no trabalho e alguém pode entrar... Não pode ser depois do expediente, na minha casa ou quem sabe na sua?
- Richard, eu falei que quero ter um filho, mas não disse que esse filho teria que ser seu!

O chefe cabeça de bacalhau (a gente sabe que tem, mas nunca viu)

- Oi Cândido, bom dia! Se o você me permite, gostaria de trocar uma idéia. Sabe como é, queria sua opinião...
- Claro Shirley, pode entrar, sente-se... Não repara a bagunça, é que acabei de chegar e estou com uma ressaca filha da mãe, e por falar nisso, você não estava no “happy hour” de ontem, o que houve? – diz o Cândido, afrouxando a gravata e desligando o celular;
- Pois é, saí para conversar com o Roberto, meu marido, você lembra dele?
- Claro, gente boa, diga que mandei um abraço pra aquele danado;
- Como eu ia falando, o Roberto e eu estamos pensando em termos um filho, ou uma filha, ou quem sabe os dois, pois temos casos de gêmeos na família e nunca se sabe;
- Shirley minha filha, mas que coisa mais maravilhosa, que Deus abençoe esta decisão de vocês e, saiba que eu dou o maior apoio!

Fecha aparte do aparte

Mas enfim, um detalhe interessante da minha segunda paternidade é que o meu, isto é, o nosso segundo filho, vai nascer com o mesmo intervalo de tempo que eu tenho com relação a minha irmã, sendo que no caso desta relação, o menino é o mais novo. Vocês estão lembrados que são 6 (seis) anos de intervalo, né? Pois é, o 6 não para por aqui... Minha irmã e eu nascemos no mês de junho, “meiando” o ano, sexto mês de doze, igualmente a minha filha, Pietra (a do hãa!!!), que nasceu dia 24 de junho, dia de São João (24 é 2 + 4 = 6). Outra coisa interessante, é que a soma das datas de aniversário, minha, da minha irmã e da Pietra, isto é, dia 29 + 19 + 24 = 72, que divididos por 4 (incluímos o bebê na divisão) dá 12, o dobro de 6... São coincidências? Não sei não...

Fecha aparte

Fiquei impressionado com a habilidade da médica, com a mão direita ela passava um bastão, que estava ligado por um fio a uma “CPU”, captando as imagens de dentro do barrigão da Karina, coma mão esquerda ela ia escrevendo em um teclado, as dimensões de cada parte que ela estava examinando, de repente veio a pergunta:

- Ele já tem nome? – Neste momento a Karina me direciona um olhar, como quem diz: taí, queria porque queria dar nome ao filho e fica ensebando! Eu meio desconfiado tive que dizer que ainda não. A médica prosseguiu no exame e verificou o peso do bebê e lançou no monitor: rapaz, pesando 513g! Em tom de brincadeira, pois aqui em Fortaleza o humor está presente em todos os momentos, a médica falou baixinho: - olha aí, meio quilo de gente...

O moleque ainda nem nasceu e já começava a acumular pelo menos dois apelidos... Meio quilo...

Isso já está começando a preocupar.