6/20/2008

Sentimental

Oi Preta,

Hoje eu acordei muito feliz pelo dia de hoje, por saber que há... quer dizer, é melhor omitir a idade né? Bem, alguns, não muitos, anos atrás, você nascia nas nossas vidas – minha, do Papai e da Mamãe – para transformar totalmente nossas formas de viver, de ver o mundo e a nossa convivência de uma forma geral.

Já lhe falei uma vez, mas talvez você não lembre, você nasceu no mesmo dia que o Chico Buarque nasceu. Tem até uma música chamada “Sentimental” em que ele faz uma referência ao signo de gêmeos, signo de vocês dois, seu e do Chico. “Chic” nascer no mesmo dia do Chico, não é para qualquer uma e isso realmente você não é, e nem ele.

“...sentimental, sentimental
um coração saliente
bate e bate muito mais que sente
Fica doente
Mas é natural, natural
Que num cochilo de agosto
Surja um outro alguém do sexo oposto...”

Conhece?

Então, eis você surgiu preta! Na época, confesso, não fiquei tão feliz não, pois ser filho único tem o seu conforto e suas conveniências, e você realmente chegou para dividir comigo essa situação, e tudo e todos que me cercavam. Ao longo da gravidez da mamãe, sempre tinha um “filho da puta” que dizia coisas do tipo: “agora quero ver”, “tua mãe vai esquecer de você”, “você vai ficar no canto” e outros mal caratismos mais, que só os adultos são capazes de cometer no afã de serem engraçados, coisas que eu apesar de criança, pois tinha 06 anos, sabia que bom não devia ser.

Só que misteriosamente foi! E é! E espero que seja até o final das nossas vidas! E que o final das nossas vidas aconteça bem lá pro final mesmo, perto do fim.

Tenho muitas recordações da nossa vida em comum, muitas mesmo, quer ver? Eu lembro dos móveis do nosso quarto, todos em branco e laranja, lindos. Lembro da cortina com motivos de “cowboy”, cavalinhos, vaquinhas. Isso tudo na Vileta onde morávamos. Depois mudamos para Travessa Mauriti, e aí tivemos quartos separados, mas brincávamos uns com os brinquedos dos outros. Você lembra da vaquinha “mú-múúuuu”? Você lembra o que você disse ao Padre João quando ele disse que, em baixo estavam os peitos da vaca? Eu lembro muito bem: - Não padre, isso não são os peitinhos, isso é o “tú” da "vata"! Quase a mamãe morre de vergonha e eu e o Padre de rir.

Na época você era graciosamente “tati-bi-tati”. Taí, esse foi apenas um dos privilégios que você teve, ser “tati-bi-tati”. Eu não podia, tive que aprender falar direito e logo, pois a mamãe tinha medo que eu virasse veado e marcava em cima, colado...

Depois mudamos novamente, pois ainda não tínhamos casa própria e ficávamos ciganeando, sempre pela pedreira, bairro que habita minhas lembranças noite após noite. Dessa vez, fomos para a Travessa Lomas Valentinas, e voltamos a dividir o mesmo quarto, quarto que abrigava sua casinha de pano do Sítio do Pica Pau Amarelo, onde durante um certo tempo, colocávamos um abajur dentro e dormíamos lá mesmo...

Bons tempos!

Por último mudamos para a travessa Humaitá e voltamos a ter quartos separados novamente, eu, você, enfim, nós “adolescemos” e de certa forma nos distanciamos ligeiramente, mas por minha causa, que estava ficando rapazinho e já era metido a homem, mas sempre nos amando, silenciosamente do jeito dos adolescentes.

Hoje, dia 19 de junho de 2008, dia do seu aniversário, estamos dormindo em quartos separados novamente, dessa vez, a vida nos distanciou um pouco mais do que de costume, pois estamos em cidades, na verdade, em estados diferentes, mas misteriosamente, você está mais presente na minha vida do que nunca.

Preta, nos momentos difíceis, queria que você soubesse que, dentro da minha memória e do meu coração, há um quarto só nosso, cheio de vaquinhas, casinhas do “sítio”, cortinas de bichinhos, com móveis branco e laranjado esperando por você. Vai lá quando quiser tá?!

Te amo,

Jorge Carvalho.



1 Comentários:

Às 10:11 PM , Anonymous Anônimo disse...

Baby,
Você me emocionou profundamente com suas palavras... Conseguiu expressar com sensibilidade e com muita verdade toda delicadeza da nossa relação!!! Sinto muita falta de conviver com você, das nossas conversas, das brincadeiras, de você tocando e cantando, de tudo... Te admiro e torço muito por você ! Te amo, você está sempre presente no meu coração, no meu pensamento e em minhas orações!!!
Um beijo,
Dezza

 

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