E o espelho não quebrou
As noites de sexta-feira, têm se repetido iguais, em forma em conteúdo. Depois das 22 e duas horas, filho e mulher dormindo, um dentro da outra, vivendo uma história à parte, quase um mundo paralelo, distantes e alheios dos escândalos políticos da hora, do último assassinato chocante, da inflação que chega cada vez mais descarada...Nesses momentos, apesar de só fisicamente, tento me defender e parto em busca do mundo, afinal, concordo com John Donne:
“nenhum é uma ilha, sozinho em si mesmo, cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”....
Então, nessas horas “medonhas” (como se diz aqui no Ceará), corro no computar, revisito meus livros, ouço músicas e lembro por lembrar, vasculho a memória e quando nada disso dá certo, corro à televisão, a grande fogueira moderna, a resposta para todos os males e a causa da maioria deles.
Nesta sexta em particular, tive o grande prazer de, no programa “conversa afinada”, conhecer um pouco do Diogo Nogueira, filho do grande e saudoso, João Nogueira, sambista, compositor e cantor da maior categoria. Autor de clássicos como “Batendo a porta”, “Eu Hein! Rosa”, “Baile no elite” e outras “balas” mais.
Dono de uma forma ímpar de cantar samba, João Nogueira tinha a voz bem empostada e firmei, voz de quem canta a verdade, não falo da verdade absoluta, que ninguém tem, mas a verdade de si mesmo, que poucos tem. Saudades do “Nogueira”, mas apesar de tudo, como diria o próprio, “força nenhuma cala a voz da multidão” e hoje, nesta sexta feira vazia, eu sou essa multidão, multidão talvez mais perigosa porque de um homem só! Mas tudo na vida, tanto as pequenas, quanto as grandes coisas começam com homem só.
Enfim, vi o moleque. E que moleque! Faço questão de repetir:
...A vida, é mesmo uma missão,
a morte é uma ilusão,
só sabe quem viveu,
pois quando o espelho é bom,
ninguém jamais morreu...
Este caso bate, mas de uma forma diferente, com aquela estória da vida eterna, que no fundo todos nós, até os mais céticos, acreditamos e queremos, mas é diferente porque esta vida eterna falada aqui, é horizontal e não vertical. Vida eterna que não vai aos céus e sim prossegue na terra, cantando e encantando, pois o moleque segue assim, com seu jeito igualmente firme de cantar, sua simplicidade, seu jeito meio “blasé” de ser, continuando a missão do pai em grande estilo.
Quem já viu, observe melhor. Quem não conheceu, conheça por que o espelho não quebrou!

2 Comentários:
São, em geral, essas horas "medonhas", onde o sono e sonho se encontram no mesmo registro, em que a sensibilidade aflora e comunga uma outra realidade, mas essa, bem mais bela, não horizontal ou vertical, mas, dilacerante, apaixonante, lanciante onde podemos ouvir o pulsar do mundo, onde podemos distinguir o pai do filho e mesmo assim entender a essencia dos dois, onde a mãe e filho dormem o sono morno aminiótico, e nessa ótica surgem além do espelho essas inspirações que musas velam nossas benvindas insônias.
parabens Diorgio.
Valeu Dudu, o comentário ficou melhor que a crônica!
Abraço,
J.
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