Volver
Não que ele esperasse ansioso por aquele momento, ou o contrário, que ele não tivesse nem aí para o que estava para acontecer, nem tanto ao mar, nem tanto a terra, na verdade era um pouco de cada, uma mistura de vontade, com medo de fazer o que pelas circunstâncias do momento, era inevitável. Todos nós vivemos esse momento na vida, o momento da decisão, o dia “D”, a hora “H”, como diz tal rock antigo. Na maioria das vezes, na grande maioria das vezes dá tudo certo, e essa máxima humana lhe encorajava, o fato de final dar tudo certo, lhe dava forças para seguir adiante, pois se achava o máximo e ele era humano, condição que naquele instante, que apesar do receio, fazia todo o sentido. Ser humano é mais que um conjunto de tecidos, órgãos, vasos e sangue. Ele sabia que era muito mais que isso, e ele tinha mais.Pode parecer mais um clichê, mas agora ele fazia um balanço da sua vida com um filme preto e branco passando pela sua memória, as coisas importantes, suas pequenas perdas, o medo do escuro, o gosto por dormir a tarde e ficar acordado a noite, a paixão pela música, o distanciamento de multidão, reuniões familiares nas refeições, as animadas festas de aniversário, o hábito de contar estórias a se formar no fundo da sua personalidade e outras coisas mais que ninguém vê, mas que funciona como uma bagagem de mão da nossa alma. Na hora do pega para capar é só procurar por ali que a gente acha o caminho.
Dentro do quarto, trancado, esperava pelo chamado, pois sabia que mais cedo ou mais tarde o chamariam enfurecidos, mas dessa vez todos teriam uma surpresa, o imprevisível iria acontecer e ele faria valer o seu nome, a sua raça e a sua força. Enfrentaria seu destino de cabeça erguida porque agora estava pronto, não ontem e nem amanhã, mas agora estava pronto. Todos os seus músculos estavam tensos, tal animal selvagem pronto para o revide grotesco da luta pela sobrevivência, e era isso que ele era no fundo do seu ser: um animal sedento e selvagem.
Apesar do seu distanciamento físico e mental, dos fatos que aconteciam do lado de fora do quarto, dava para ouvir uma movimentação diferente na rotina da casa, um burburinho que às vezes explodia em choro com risadas isoladas, como se alguém estivesse tendo prazer em ver aquelas cenas, e isso o revoltava e lhe deixava mais selvagem que seu estado natural, como se ainda fosse possível. Longe ele escutou o grito de desespero de Armando, seu irmão mais velho, um grito lacerante, expressando um terrível sofrimento e nesse momento ele se sentiu o mais impotente dos homens, pois nada podia ser feito e seu irmão teria que cumprir seu destino, assim como ele em pouco tempo teria de cumprir o seu próprio. Se existisse um método, uma seqüência lógica, logo logo seria a vez dele, pois ele era o caçula de três irmãos homens, e só faltava mais um para chegar nele, o Alfredo, o que ele tinha mais afinidade.
Alfredo, apesar de ser o irmão do meio, portava-se como se fosse o mais velho, era o líder natural entre os três, foi o que primeiro beijou na boca, era o craque de bola do bairro, estudioso, bom filho e o mais bonito। No fundo, o predileto da família, mesmo que todos dissessem não, mas isso não era problema entre os irmãos, sua liderança era pacífica e merecida, e a sensação de que a próxima vítima seria ele, era a mais angustiante possível.
Lembrou de um trecho de um tango antigo sem saber porque...
“...Tengo miedo del encuentro
con el pasado que vuelve
a enfrentarse con mi vida
tengo miedo de las noches
que pobladas de recuerdos
encadenan mi soñar
pero el viajero que huye
tarde o temprano detiene su andar
y aunque el olvido que todo destruye
haya matado mi vieja ilusión
guardo escondida una esperanza humilde
que es toda la fortuna de mi corazon...”
Ao final da lembrança, escutou todo o silêncio da tarde sendo rasgado pelo grito do Alfredo e, percebeu que esse era o aviso e essa era a hora. A vida estava acontecendo a toda do lado de fora do quarto e ele não podia ficar de fora dela nem mais um segundo. Abriu a porta do quarto e encarou silenciosamente os dois homens de uniforme que estavam a sua frente, pensou que diferentemente das outras vezes, hoje eles estavam em dupla e deviam ter seus motivos. Talvez temessem pela própria segurança e isso não tinha a menor importância, o que importava mesmo é que estavam ali, sérios, uniformizados e truculentos. O mais novo, pois não devia ter nem vinte anos aquele rapaz, foi quem tomou a iniciativa abrindo a bolsa e retirando a lâmina de dentro. A família toda sentada, apreensiva, esperando pela reação dele, já não agüentava mais tanto sofrimento quando o pai rompendo com o silêncio falou calmamente:
- Vai filho, anda, o fura dedo não tem o dia todo...

2 Comentários:
"Homem maravilhoso" se dependesse do nosso amigo Mosca, eu jamais encontraria o teu blog. Resolvi partir pra busca independente e matei a charada no orkut. Não sei, é claro, se tu lembras de mim, mas eu já conheço a tua habilidade narrativa da comunidade "o mosca mentiu pra mim." Então, parabéns pelo novo formato. Novo, pelo menos para mim. E agora me torno leitor. Grande abraço!
Fala Geraldo!
Claro que lembro de você, como vai? Tudo beleza, família legal? Espero que sim! Bem, obrigado primeiramente pelo seu interesse e espero que você goste, e caso não gostar ou discordar, pode mandar ver que o blog é democrático, quer dizer, houve uma eleição direta e eu fui eleito presidente, após ter assumido me tornei um ditador, mas um ditador diferente, eleito pelo povo, o que de certa forma me confere mais poderes... Então me dou ao direito de vetar algumas coisas... Brincadeiras à parte, beleza saber de você e qualquer coisa estamos por aqui!
Obs: Se quiser divulgar a casa agradece!
Grande abraço,
J.
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