1/24/2006

Visagens na Beneficente Portuguesa.

De uma forma geral, eu acredito muito na dualidade de sentimentos, de coisas, da natureza... Resumindo: eu acredito que a vida vem em pares. Falando de uma forma simplista é isso mesmo, sol e lua, homem e mulher, bem e o mal, coisas opostas que seguem a vida se completando, às vezes em harmonia, às vezes numa luta incessante, como na música “Cata-vento e Girassol”, do Aldir Blanc e do Guinga. Acredito também, que na criticidade do momento não dá para distinguir quem é quem na situação. Existem pessoas que choram de felicidade ou mesmo, quem ri para não chorar. Pois é, dia desses, teoricamente, eu estava servindo de companhia para o papai que estava internado na Beneficente Portuguesa, digo “teoricamente” porque na verdade eu é que estava me servindo da sempre agradável companhia dele, dividindo conversas, silêncios e outras coisas mais que cabem em uma relação verdadeira entre pai e filho.

Sou fumante e os íntimos sabem desse vício incômodo que carrego já há bastante tempo e, vez por outra, ao longo da madrugada, eu descia as escadas apertadas para fumar perto da máquina de refrigerante, em uma área aberta saindo do porão lá embaixo, descobertas típicas de fumante. Passei treze madrugadas nesse hospital, inclusive a do dia 31 de janeiro, percorrendo esse caminho que me dava medo, mas ao mesmo tempo trazia o alívio.

Quando criança, eu era muito medroso, “frouxo”, como dizem por aqui, mas mesmo assim adorava estórias de visagens e, sempre que tinha alguém que sabia de uma eu não saía de perto, depois era outro papo, só faltava me mijar de medo. O tempo foi passando, fui crescendo e os medos foram desaparecendo, ou talvez, sendo substituídos por outros, até que, nessas madrugadas de hospital, reencontrei meus medos antigos. Enquanto fumava, eu pensava na quantidade de pessoas que passaram por aquele lugar, das que se safaram e das que não. Cheguei à conclusão, e infelizmente isso aconteceu logo nas primeiras madrugadas, de que ali, naquele lugar, naqueles corredores escuros, tinha de haver fantasmas, visagens e sei lá mais o quê. A Andrezza, que além de psicóloga é minha irmã, ainda chegou a argumentar que se ela fosse morta, um dos lugares em que ela não iria estar era em um hospital, o que não me convenceu nem um pouco por um par de motivos. Primeiro, ela está pensando como viva e não como morta, e nós sabemos que, neste lapso temporal que leva uma vida à morte, a pessoa muda bastante. Segundo, ela não fuma, nunca fumou, e nem nunca fumará, o que é determinante, neste caso, já que ela não percorre, não percorreu e nem percorrerá o caminho do fumante na Beneficente Portuguesa de madrugada.

O papai foi bastante visitado durante o tempo que permaneceu internado, o que foi muito bom para ele e para todos nós. Em uma dessas visitas, estávamos conversando com um casal amigo em que a mulher é enfermeira por profissão e eu comentei em tom de brincadeira essa estória de cigarro, medos e fantasmas. Sem maiores pretensões, perguntei a ela se existiam mesmo visagens nos hospitais. Ela, sem pestanejar disse: “Se for num hospital que preste, claro, tem que existir.” Minhas madrugadas não foram mais as mesmas desde então, pois, ao contrário da Andrezza, que entende da vida e da mente humana, a amiga e enfermeira, entende das coisas da vida e, o pior, da morte também. Juntei esses pólos opostos e somei a criticidade do momento porque eu estava passando e passei a ver coisas, falar com fantasmas e caminhar apavorado pelo mundo dos mortos.

Calma, calma, calma. Eu explico e tudo vai ficar claro como água. Às vezes, quando eu chegava ao fim do caminho do fumante, perto da máquina de refrigerante, lá estava alguém sentado por perto. Eram homens e mulheres à paisana ou vestidos de branco, que igualmente a mim iam fumar e espairecer um pouco. Agora eu pergunto: “O que você pensaria se estivesse lá pelas duas horas da manhã, em um hospital sombrio desse jeitinho que eu falei, vivendo o momento que eu estava vivendo, e se deparasse pelos corredores com essas ‘pessoas’?” Claro que pensaria que estavam mortas! E pra mim estavam mesmo. Os meus cigarros iam pro chão cada vez mais longos e quando um deles puxava papo comigo, porque a recíproca jamais acontecia, eu evitava perguntas tipo: “Tá fazendo o que por aqui?” ou “Pra onde você vai?” “De onde vem”, “Tá frio aqui, né?”. Eu sempre era passivo no diálogo e, temia muito as perguntas. Teve um cara que, falando sobre política e coisa e tal, disse que ficou chocado com o suicídio do Getúlio Vargas. Pô, vai dizer que esse cara estava vivo?! Estava morto, com certeza, e, só porque estava vestido de branco, tentando se passar por médico, queria tirar uma da minha cara. Nesse caso, não tive medo, fiquei foi puto por ele ter pensado que estava me enganando. Fantasma mal caráter do caralho!

Em uma outra vez, encontrei uma senhora muito simpática, morta, mas muito simpática. Conversamos por duas madrugadas na hora do cigarro, pois ela também fumava e isso me levou a crer que o vício tinha sido seu fim. Ela falou que estava acompanhando o marido, que tinha sido operado do coração e não via a hora de sair dali para voltar para a fazenda em Tucuruí. Disse que ele tinha saudade dos bichos etc. Tudo mentira, só que dela, inexplicavelmente eu gostei. Simpatia é uma merda mesmo, né.

Como tudo que começa acaba, acabou. Papai teve alta e, ao contrário das pessoas com quem eu, às vezes contrariado conversava pelo caminho do fumante na Beneficiente Portuguesa, ele saiu e voltou pra casa que é o lugar de quem está vivo. Mas que eu vi, ah eu vi...


1 Comentários:

Às 2:28 PM , Blogger Dudu Neves disse...

Essas suas maravilhosas viagens ao mundo das visagens, discorrem na gente esse prisma do mundo imaginario e seus personagens.

parabens cronista.

 

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